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Sífilis: Mudanças no Comportamento Sexual Geram Epidemia de Sífilis

Nos últimos anos, o aumento no número de casos de sífilis no Brasil tem preocupado autoridades e especialistas. A doença, que até algum tempo atrás não exigia maiores atenções por parte das instituições oficiais, apresentou um crescimento acentuado diretamente relacionado com mudanças no comportamento sexual do brasileiro.

Mônia Muriel Nery Esteves
em 08-Set-2016

O fato é que cada vez mais as pessoas fazem sexo sem o uso de preservativos. Atribui-se essa prática ao surgimento de fortes medicamentos antirretrovirais que possibilitam uma maior sobrevida e convivência com o Vírus da Imunodeficiência Humana – HIV, reduzindo, desta forma, o temor da população em relação à Aids e a doenças sexualmente transmissíveis.

No Brasil, apenas os casos de sífilis congênita, ou seja, no feto, e em gestantes são obrigatoriamente notificados. Os dados são registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação Compulsória – SINAM, do Ministério da Saúde, e analisados pela equipe técnica do governo, para fins de programação de ações de saúde.

 

Os dados gerados nos últimos anos foram tão alarmantes que resultaram na publicação do Boletim Epidemiológico Sífilis 2015, apesar de o Ministério da Saúde negar a existência de uma epidemia.

Para se ter uma ideia, em 2010 houve apenas 3 casos notificados de sífilis (2 entre gestantes e 1 de sífilis congênita). Este número saltou para 11.586 casos em 2013. Ressaltando que estes dados representam apenas os casos obrigatoriamente notificados no Ministério da Saúde, ou seja, os relativos a pacientes gestantes e fetos contaminados. Não englobam, pois, o restante da população brasileira. De acordo com o SINAN, o maior número de ocorrências vem da região Sudeste, com cerca de 40% dos pacientes infectados notificados, seguido pelo Nordeste, com 27% dos casos.

 

 

Mas, afinal, o que é a Sífilis?

A sífilis venérea, também conhecida como cancro duro, é uma doença infectocontagiosa, causada pela bactéria Treponema pallidum, e é transmitida por contato sexual, na quase totalidade dos casos, possuindo diversos estágios conhecidos, que variam desde uma única ferida indolor, de bordas endurecidas, com fundo liso e brilhante na região genital, até lesões disseminadas por todo o corpo, em especial palmas das mãos, plantas dos pés e costas.

A origem da sífilis é desconhecida. Porém, há registros de casos da doença desde o final do século XV, na Europa, após o retorno de Cristóvão Colombo das Américas. Daí a hipótese de que a bactéria é originária do Novo Mundo e foi difundida no restante do planeta após o período das descobertas.

Sintomas da Sífilis

A sífilis possui diversos estágios e, por isso mesmo, é chamada de “doença das mil face”, com sintomas diversos em cada um deles.

No estágio primário da infecção, aparece uma lesão, um cancro, pequeno e de base endurecida, com as bordas duras bem delimitadas, no local onde houve contato com a bactéria, de 10 a 90 dias após a exposição. Esta úlcera é totalmente indolor e possui uma secreção em seu interior altamente contagiosa. Entre 3 a 6 semanas a lesão desaparece. Durante esta fase, as bactérias entram na corrente sanguínea e no sistema linfático e se espalham pelo organismo.

Uma vez que os microrganismos se distribuíram pelo corpo todo, surgem, então, no estágio secundário, erupções de diversos tipos, desde manchas e brotoejas, até pústulas (pequenas bolhas com pus), todas altamente infecciosas. As manchas características aparecem no corpo todo, mas as marcas nas palmas das mãos e plantas dos pés são a forma característica. Outros sintomas são perda de cabelos e sobrancelhas, mal-estar e febre e todos eles desaparecem de forma espontânea, normalmente, dentro de três meses.

Após o estágio secundário, a sífilis entra no período latente, no qual não há sintomas aparentes. Entre 2 a 4 anos na fase de latência, a doença deixa de ser contagiosa, com exceção da transmissão congênita, e geralmente não ocorre recidivas, mesmo sem tratamento.

Entretanto, em cerca de um terço dos casos, ocorre o que chamamos de estágio terciário da sífilis, que se caracteriza pelo tipo de lesão e pelo local afetado, tais como as formas cutânea, óssea, cardiovascular, nervosas e outras. A sífilis terciária pode demorar de 2 até 40 anos para se manifestar.

Existe a sífilis gomosa, na qual aparecem lesões chamadas gomas em diversos órgãos, especialmente a pele; a sífilis cardiovascular, que ocorre em 10% dos pacientes não tratados e causa aneurisma e dilatação da aorta, provocando insuficiência e indevido retorno do sangue da aorta para o ventrículo esquerdo do coração (regurgitação); a neurossífilis também pode ocorrer em até 10% dos casos não tratados e pode provocar demência, convulsões, perda de coordenação dos movimentos voluntários, paralisia parcial, perda da habilidade do uso ou da compreensão da linguagem falada, perda de visão ou audição ou perda do controle da bexiga e dos intestinos. A neurossífilis pode ocorrer em qualquer estágio, não necessariamente na fase terciária.

Qual o perigo da Sífilis em gestantes?

O grande risco é a transmissão para o feto, já que a bactéria, uma vez presente na corrente sanguínea da mãe, atravessa a barreira placentária e penetra na corrente sanguínea do bebê, em qualquer momento da gestação, geralmente provocando sua morte. Cerca de 50% dos que sobrevivem apresentam malformação de dentes e ossos, cegueira, surdez e sífilis cardiovascular. Podem ocorrer problemas mentais e neurológicos.

Como se transmite?

A transmissão por contato sexual pode ocorrer durante os estágios primário e secundário. Dentistas e outros profissionais da saúde podem se infectar ao entrarem em contato com os fluidos dessas lesões pela penetração das bactérias através de lacerações microscópicas na pele. O Treponema pallidum é extremamente sensível e não sobrevive em ambientes secos ou com desinfetantes, daí o motivo de ser impossível o contágio em vasos sanitários. A doença também pode ser congênita ou adquirida por transfusão de sangue contaminado.

Como é feito o diagnóstico?

Como a sífilis possui estágios diferentes, o diagnóstico em cada fase também é diferente.

No estágio inicial, além do diagnóstico puramente clínico, devido às características peculiares do cancro, pode ser feito teste por microscopia em campo escuro em raspado da lesão e também teste de anticorpo fluorescente direto (DFA-TP).

No estágio secundário, são feitos testes sorológicos, tais como:

  • teste VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), que pode ser positivo também para doenças como hanseníase, tuberculose, mononucleose, artrite reumatoide e, por isso, deve ser confirmado pelo FTA-ABS;
  • teste rápido de reagina plasmática – RPR (Rapid Plasma Reagin);
  • teste diagnóstico rápido – RDT (rapid diagnostic test), que pode ser feito a partir de uma gota de sangue coletada do dedo do paciente em um consultório médico;
  • teste de absorção de anticorpo treponêmico fluorescente – FTA-ABS (fluorescent treponemal antibody absorption test)

Qual o tratamento?

Para a cura da sífilis, a Organização Mundial de Saúde recomenda uma única dose de penicilina benzatina, a famosa benzetacil, um antibiótico injetado nas nádegas ou na coxa do paciente infectado. Esse é o tratamento mais eficaz para a sífilis, sendo também mais barato que os antibióticos orais.

Como posso me proteger?

Como ainda não existe vacina contra sífilis, a melhor forma de prevenção é o uso de preservativo durante as relações sexuais com múltiplos parceiros, apesar de a camisinha não ser totalmente eficaz, já que a transmissão se dá por contato. Ou seja, se a lesão, no estágio primário ou secundário, for em região não coberta pelo preservativo, este não impedirá o contágio.

Qual profissional devo procurar?

Caso você observe alguma lesão como a descrita acima procure imediatamente um ginecologista/urologista ou infectologista.

Tenho sífilis. E agora?

Calma!

  • O primeiro passo é comunicar seu parceiro para que ele/ela também realize o teste.
  • É importante realizar também testes para HIV e hepatites, já que a existência de lesões na região genital facilitam a transmissão de outros vírus sexualmente transmissíveis.
  • Por fim, lembre-se que o tratamento é simples, com antibióticos injetáveis, e que recidivas praticamente só ocorrem em pacientes não tratados.
  • No caso das mulheres que quiserem engravidar, lembrem-se de comunicar à ginecologista que já tiveram a doença.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BRASIL, MS. Guia de vigilância epidemiológica. 8. ed.

BRASIL, MS. Boletim epidemiológico. Sífilis. Ano IV. Nº 1. 2015.

BRASIL, MS. Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

MURRAY, Patrick R. et all. Microbiologia Médica. 3. ed. Guanabara Koogan: Rio de Janeiro, 1998.

TORTORA, Gerard J.; FUNKE, Berdell R.; CASE, Christine L.. Microbiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.

TRABULSI, L. R. Microbiologia. 4 ed. Atheneu: Rio de Janeiro, 2008.

Organização Mundial de Saúde. Crescente resistência aos antibióticos obriga alterações no tratamento recomendado para infecções sexualmente transmissíveis. http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5209:crescente-resistencia-aos-antibioticos-obriga-alteracoes-no-tratamento-recomendado-para-infeccoes-sexualmente-transmissiveis&Itemid=816

Brasileiros. A epidemia silenciosa de sífilis. http://brasileiros.com.br/2015/09/epidemia-negligenciada-de-sifilis/

 

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